terça-feira, 7 de março de 2017

REFORMA CURRICULAR BRASILEIRA: ONDE VAI A FORMAÇÃO DO PROFESSOR?


Reforma Curricular Brasileira:Para Onde Vai a Formação do Professor?
Silvia M. Gasparian Colello
(Faculdade de Educação da USP)

“Educar é formar os estudantes como pessoas íntegras,
ensinar-lhes a pensar bem, a ser cidadãos responsáveis.
O que não se sabe é como fazê-lo.” (López Quintás)
Nas suas origens, o pedagogo era o adulto que, na Grécia antiga, incumbia-se de conduzir as crianças até o mestre, isto é, aquele que – literalmente – tornava possível o acesso à educação. Dois mil e quinhentos anos se passaram e, apesar dos transportes escolares terem praticamente resolvido o problema físico de acesso à escola, o princípio da “condução”, enquanto essência do processo educativo(1), parece ainda um desafio às mais avançadas propostas de ensino em todo o mundo. Tal é, sem dúvida, o eixo para onde converge o presente dossiê: “Reforma Curricular Brasileira”, uma prestimosa contribuição oferecida por dois renomados estudiosos da educação, César Coll e Alfonso López Quintás. Seu grande mérito está em lançar diretrizes que justificam e subsidiam a formação docente à luz dos princípios pedagógicos da LOGSE, na Espanha, e dos PCNs, no Brasil. Mais do que nunca, estamos nos referindo a uma meta que não pode ser compreendida senão como “absolutamente imprescindível para poder pôr em prática uma ação docente de qualidade” (Coll).
Afora o pressuposto dever de sempre (na perspectiva histórica, eternamente) buscar o melhor exercício da profissão e de fazê-lo nos diversos níveis de exigência das diferentes instituições, disciplinas, faixas etárias e realidades culturais, adequando-se ainda à atualidade do conteúdo e aos recursos técnicos disponíveis, o que há de verdadeiramente novo nos apelos das propostas pedagógicas em questão é a necessidade de uma ótica diferenciada sobre o processo educativo: uma mudança de mentalidade tão mais profunda quanto o grau de perplexidade por ela desencadeada.
O que se tem em vista é, no mínimo (mas certamente com a incorporação máxima de todas as implicações aí contidas), compreender a educação a partir de três pontos fundamentais e – no contexto do que se propõe -, indissociáveis: paradigma, meio e meta. No que diz respeito à concepção de aprendizagem, cumpre livrar-se do paradigma tradicional, profundamente enraizado em nossa cultura pedagógica, de ensinar pela estrita sucessão linear de informações cumulativas e ordenadas segundo critérios a priori, tão estranhos ao sujeito cognoscente, que jamais podem “penetrar na sua mente e no seu coração” (Quintás). Em contrapartida, quando o aluno é obrigado a abrir mão dos seus pontos de vista pessoais e considerar os diferentes níveis de realidade, valoriza-se o conhecimento conquistado por conta própria, a partir de profundas “reviravoltas mentais”. A “lógica do saber muito” é, assim, substituída pelo valor de poder lidar com esse conhecimento, recriando a realidade em múltiplas formas, abordagem e relações.
A mudança do paradigma impõe ao professor a responsabilidade de novos e mais criteriosos meios de conduzir o processo pedagógico. Em uma escola que tanto se especializou em ensinar, perde-se, muitas vezes, a razão do ensino, motivo pelo qual a equipe docente deve reexaminar as tendências puramente academicistas da composição curricular. Manejar a proposta pedagógica, adequando-a às necessidades sociais de seus alunos constitui, para Coll, um verdadeiro esforço de valorização da vida pelo ensino de qualidade. Nessa perspectiva, o grande desafio do educador é garantir o significado do conhecimento em abordagens transversais que, sem diluir o específico de cada disciplina, permitam ao aluno pensar com clareza sobre um mundo nem sempre compreensível. Em face das dificuldades práticas daí geradas, nada mais oportuno do que a consideração de Quintás: “a filosofia precisa ser luz para a sociedade e não um banquete para os professores de filosofia.”
Em perfeita consonância com o paradigma da aprendizagem e o modo de conquistá-la está a meta primordial da ação educativa: superando os objetivos inerentes ao conhecer, a formação humana implica no desenvolvimento das capacidades mentais para a justeza do pensar, a autonomia de julgamento, a criatividade e o discernimento, tendo em vista a inserção consciente e crítica do homem no mundo em que vivemos. A perplexidade gerada pela conjuntura das tendências pedagógicas merece ser respondida com medidas práticas e vontade política para a efetiva formação de professores. Por sua vez, tais iniciativas não podem prescindir da clareza de diretrizes e do enfrentamento compromissado das dificuldades encontradas, tão bem explicitados pelas matérias que se seguem. Tendo em vista que o sucesso do que ora se propõe só pode ser conseguido se os pontos polêmicos – principalmente eles! – puderem ser contornados, a entrevista concedida por César Coll é um aporte para o amadurecimento de mentalidades e um avanço na implantação dos PCNs. Quintás, por sua vez, traduz com maestria as metas da educação, considerando as fases do processo formativo e o papel das diferentes disciplinas no projeto pedagógico. Sua entrevista é também uma “deliciosa degustação” do trabalho desenvolvido para promoção do homem pensante(2): um convite ao pedagogo que, ainda nos dias de hoje, vislumbra o processo educativo como um eterno conduzir e reconduzir.

1. Educar, etimológica e realmente remete a conduzir: “educate (…) related to educere to lead forth, which is sometimes used nearly in the same sense.” (Oxford English Dictionary edition on Compact-disk, Oxford University Press, 1992).
2. De inúmeros títulos produzidos, três já estão publicados no Brasil: O Amor Humano e Estética (Petropólis, Vozes, 1995 e 1993), e A Formação para o Amor, Paulus, 1995.
Fonte:http://www.hottopos.com/

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