sábado, 27 de fevereiro de 2016

Alfabetização: um processo em construção

A criança busca a aprendizagem na medida em que constrói o raciocino lógico. O processo evolutivo de aprender a ler e escrever passa por níveis de conceitualização que revelam as hipóteses a que chegou a criança.
Na Psicogênese da Língua Escrita, Emília Ferrero definiu cinco níveis:Nível 1: Hipótese pré-silábicaNível 2: Intermediário INível 3: Hipótese SilábicaNível 4: Hipótese Silábico-Alfabética ou Intermediária IINível 5: Hipótese Alfabética
A caracterização de cada nível não é estanque, podendo a criança estar numa determinada hipótese e mesclar conceitos do nível anterior. Tal “regressão temporária” demonstra que sua hipótese ainda não está adequada a seus conceitos.Os níveis intermediários I e II são momentos do processo que se caracterizam pela evidência de contradições na conduta da criança e nos quais percebe-se a perda de estabilidade do nível anterior e a não-organização do nível seguinte, evidenciando o conflito cognitivo.Nível 1 - Hipótese Pré- Silábica:ð Não estabelece vínculo entre a fala e a escrita;ð Supõe que a escrita é outra forma de desenhar ou de representar coisas e usa desenhos, garatujas e rabiscos para escrever;ð Demonstra intenção de escrever através de traçado linear com formas diferentes;ð Supõe que a escrita representa o nome dos objetos e não os objetos;coisas grandes devem ter nomes grandes, coisa pequenas devem ter nomes pequenos;ð Usa letras do próprio nome ou letras e números na mesma palavra;ð Pode conhecer ou não os sons de algumas letras ou de todas elas;ð Faz registros diferentes entre palavras modificando a quantidade e a posição e fazendo variações nos caracteres;ð Caracteriza uma palavra com uma letra inicial;ð Tem leitura global, individual e instável do que escreve: só ela sabe o que quis escrever;ð Supõe que para algo poder ser lido precisa ter no mínimo de duas a quatro grafias, geralmente três (hipóteses da quantidade mínima de caracteres);supõe que para algo poder ser lido precisa ter grafias variadas (hipótese da variedade de caracteres).
Nível 2 – Intermediário I (Silábica sem valor sonoro):ð Começa a ter consciência de que existe alguma relação entre a pronúncia e a escrita;ð Começa a desvincular a escrita das imagens e números das letras;ð Só demonstra estabilidade ao escrever seu nome ou palavras que teve oportunidade e interesse de gravar. Esta estabilidade independe da estruturação do sistema de escrita.ð Conserva as hipóteses da quantidade mínima e da variedade de caracteres.
Nível 3 - Hipótese Silábica:ð Já supõe que a escrita representa a fala;ð Tenta fonetizar a escrita e dar valor sonoro às letras;ð Pode ter adquirido, ou não, a compreensão do valor sonoro convencional das letras;ð Já supõe que a menor unidade da língua seja a sílaba;ð Supõe que deve escrever tantos sinais quantas forem às vezes que mexe a boca, ou seja, para cada sílaba oral corresponde uma letra ou um sinal;ð Em frases, pode escrever uma letra para cada palavra.ð Ao ler as palavras que escreveu o que fazer com as letras que sobraram no meio das palavras (almofada) ou no final (sobrantes)?ð Se coisas diferentes devem ser escritas de maneira diferente, como organizar as letras na palavra?
Nível 4 - Hipótese Silábico- Alfabética:ð Inicia a superação da hipótese silábica;ð Compreende que a escrita representa o som da fala;ð Combina só vogais ou só consoantes, fazendo grafias equivalentes para palavras diferentes. Por exemplo, AO para gato ou ML para mola e mula;ð Pode combinar vogais e consoantes numa mesma palavra, numa tentativa de combinar sons, sem tornar, ainda, sua escrita socializável. Por exemplo, CAL para cavalo;ð Passa a fazer uma leitura termo a termo (não global).
Nível 5 - Hipótese Alfabética:ð Compreende que a escrita tem uma função social: a comunicação;ð Compreende o modo de construção do código da escrita;ð Compreende que cada um dos caracteres da escrita corresponde a valores menores que a sílaba;ð Conhece o valor sonoro de todas as letras ou de quase todas;ð Pode ainda não separar todas as palavras nas frases;ð Omite letras quando mistura as hipóteses alfabética e silábica;ð Não tem problemas de escrita no que se refere a conceito;ð Não é ortográfica nem léxica.
O professor precisa levar a criança a raciocinar sobre a escrita e, para isso, ele deve criar um ambiente rico em materiais e em atos de leitura e escrita, incentivando-as. Também, deve provocar interações entre os diferentes níveis, principalmente os mais próximos. Dessa forma, o professor não precisa trabalhar necessariamente com cada aluno, mas sim lhes permitir a comunicação, que é o principal instrumento da didática da aprendizagem da alfabetização. Isto demonstra o valor do trabalho numa classe heterogênea e o quanto ele é viável, uma vez que a homogeneidade é característica apenas dos 1ºs momentos de uma classe remanejada, pois a evolução de cada criança é pessoal.
Em todos os níveis deve-se trabalhar o som das letras do alfabeto, o reconhecimento das formas das letras e a associação grafema-fonema.
“Uma mesma atividade pode servir para aluno em qualquer nível do processo, contanto que ela englobe um espaço amplo de problemas e que o professor provoque diferentemente, questões e desafios adaptados a alunos em situações desiguais dentro da psicogênese”.
O professor deve ter o cuidado de não avaliar a criança como se estivesse em outra hipótese:* Na escrita de pré-silábicos deve procurar avaliar tudo o que se referir à letras: o número e a ordem, seu tamanho e sua posição nas palavras e as iniciais e as finais;* Na hipótese silábica não avaliar usando critérios alfabéticos , mas fazer análise da características da palavras no texto, dando mais ênfase à letra da 1ª sílaba e as 1ªs sílabas das palavras: “pode confrontar produções individuais e ditar palavras como mala, mole, mula que podem resultar ML ou palavras como pato, sapo, calo que podem resultar AO. Ao requerer a leitura dessas palavras, o professor coloca o aluno em conflito, uma vez que ele irá perceber que fez a mesma grafia para palavras diferentes”.* Na hipótese alfabética, correções ortográficas não devem ser feitas e deve-se trabalhar produções individuais e coletivas dos alunos, nas letras de músicas conhecidas pelas crianças ou em qualquer texto que garanta efetivo envolvimento do aluno

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